ACORDO ORTOGRAFICO

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18/07/2019

768 - Luanda



A minha mulata

O sol recolhera seus raios de luz
a noite chegara de estrelas despida
e a lua bailava na fímbria do mar
largando feitiço p’ra me conquistar.
Calaram-se grilos, râs e cigarras
e o vento me trouxe o cheiro a loengo
carambola, múcua, tambarindo e maboque.
Soaram marimbas,hungus e batuques
vibraram palmeiras, coqueiros, e eu
me entrego e balanço ao som da batida
me envolvo na dança me deixo levar.
Bebo marufo que Zefa me deu
acendo um cigarro, atiço o olhar
e as ancas da negra me fazem sonhar.
Bebi da cabaça esperando por ela
por minha mulata meu fruto silvestre...
e a meio da noite mulata chegou
lábios pitangas maduras e frescas
corpo gazela de rabo de leque
olhos luzindo promessas de amor
e seios fazendo tilim tilintar
as contas bonitas dos balangandãs.
A noite aqueceu, o ritmo cresceu
e minha mulata remexeu remexeu...
e minha mulata requebrou requebrou
a noite inteirinha comigo dançou.
A poeira do chão... dona noite comeu!
O nosso suor... senhor vento levou!
Mas nossa paixão no terreiro ficou
no auge da dança o desejo cresceu
e no mexe e remexe o pecado chegou.

E quando o som do batuque
manhã cedo morreu...
o vento buliu com as mulembeiras...
o sol acordou as cantigas das aves
e no chão, estendida, a esteira acolheu,
(mistura de manga, goiaba e caju),
o seu cheiro e o meu...
a minha mulata...aiué... aiué...
minha bela mulata
me agarrou e beijou
e na sua cubata
aiué...aiué...
seu corpo me deu.

Albertino Galvão

17/07/2019

767 - Vila Real de Trás-os-Montes


Apelo

Porque
não vens agora, que te quero
E adias esta urgencia?
Prometes-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência....

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o imite dos mortais.

Miguel Torga

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NOTA - O QUE VER EM VILA REAL DE TRÁS OS MONTES 

 

16/07/2019

766 - Évora


Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas ... Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!

Évora! ... O teu olhar ... o teu perfil ...
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me alvoroça!

... Em cada viela o vulto dum fantasma ...
E a minh'alma soturna escuta e pasma ...
E sente-se passar menina e moça ... 

Poema sobre Évora 
  (Florbela Espanca) 

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NOTA - O QUE VER EM ÉVORA 

 


15/07/2019

765 - Braga



Bracara Augusta

“Oh! Bela cidade romana.
Oh! Bela cidade imperial.
Braga, cidade profana,
Domus do amor ideal.

Oh! Belas virgens vestais.
Oh! Bela urbe religiosa.
Cidade de amores tais,
Que justiça só em prosa.

Oh! Bela cidade Bracara.
Oh! Bela cidade Augusta.
Cidade que apenas pára,
Se a luta não é justa.

Oh! Cidade sem rio grande.
Oh! Cidade sem Mar.
Não quem há na cidade quem mande
Como a magia do velho altar.

Oh! Bela cidade clerical.
Oh! Bela verde fonte.
Tudo desde a sé Catedral,
Ao bom Jesus do monte.

Oh! Bela minhota.
Oh! Bela cidade calma.
De noite pura e marota,
De dia viva e com alma.
Oh! Bela cidade de vida.

Oh! Memória de estudante.
Apesar da partida,
Braga, serás minha amante!”

Setembro 2001
DavidAlmeida

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NOTA - O QUE VER EM BRAGA 

 

12/07/2019

764 - Coimbra




Coimbra, velha cidade
De ruas medievais;
Do Penedo da Saudade
Onde tantos imortais
Poetas e trovadores,
Tiveram os seus amores
Nos tempos da mocidade… 
 Coimbra dos estudantes
E das tricanas bonitas,
Das noites inebriantes
Da tua Queima das Fitas…

Coimbra, cidade linda,
Foste sempre e és ainda
A cidade capital
Do amor em Portugal!

Tens na Fonte dos Amores
O amor simbolizado
Por D. Pedro e D. Inês
Num romance consagrado.

Rio Mondego, o Choupal,
O teu Jardim da Sereia
E a Escada Monumental
Junto à Universidade…
Fazem de ti, sem igual,
A mais bonita cidade!
Deste nosso Portugal!...

Coimbra de tradições,
Cidade-mãe de doutores
E da velha Universidade;
Fazes vibrar corações
Por tantas recordações,
Numa palavra…és saudade!


Fernando Reis Costa


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NOTA - O QUE VER EM COIMBRA 

 

11/07/2019

763 - Lisboa


Lisboa

Digo: "Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade - Digo para ver.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1977),
in Obra Poética, 2011

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NOTA - O QUE VER EM LISBOA